sexta-feira, julho 29, 2005

Cruz Alta, Verissimo

Para quem vem do mar, Cruz Alta, no Rio Grande do Sul, inaugura o chamado território das missões. Erico Verissimo nasceu aí em 1905 e atravessou quase todo o nosso século XX. Estive duas vezes em Cruz Alta quando descia em busca da paisagem das missões – campos cruzados de rios, lagoas, neblinas, na direcção da Argentina e, mais ao norte, do Paraguai. É naquela parte do Brasil que se descobre com mais clareza que Camilo, bem como o nosso século XIX, tinham razão. Não se tratava de Brasil mas de Brasis. Quem lesse Os Sertões, de Euclydes da Cunha, imaginaria que se falava de outro país, completamente diferente e noutro hemisfério. O primeiro parágrafo de Os Sertões serve de prova: «O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; e desata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas ao derivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa oriental em andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando-o consideravelmente para o interior.» É certo que a linguagem de Euclydes se transformou naquela exuberância que nem ele próprio esperava antes de partir para Canudos – essa mesma exuberância também deve ter assustado Vargas Llosa, quando leu o livro e escolheu o tema.

Cruz Alta não tem nada a ver com o assunto nem com a geografia. Quase todo o Rio Grande do Sul me serve para provar a existência dos Brasis diante do Brasil federativo, em planisfério, tropical e moreno. Quem leu Tabajara Ruas (o de Netto Perde a Sua Alma ou O Fascínio) ou Luiz Antônio Assis Brasil (o de O Pintor de Retratos ou A Margem Imóvel do Rio) conhece essas neblinas do pampa, a extensão dos pastos, as estradas lamacentas, casas pintadas de branco rodeadas de colinas, vinhas, aquele frio que se aprende mais na literatura do que na pele. Erico Verissimo, por isso mesmo, foi prejudicado pelo paradigma baiano. Qualquer biografia menciona a sua primeira viagem para o Rio de Janeiro e reconhece o momento, como se fosse uma genuflexão: ele encontrou-se com Jorge Amado por volta de 1934. Não foi uma genuflexão. Mas ficou como um sinal.

O Brasil de Verissimo era muito distinto daquele que nos chegava em caixotes de folclore e dialectos locais. Não tinha, inscritos no frontispício, «a cor local», o regionalismo, o apego à geometria do realismo socialista. Não que não pudesse ser realismo socialista; mas não tinha o cartaz à porta, convidando a entrar por esse lado. O livro de Verissimo mais lido em Portugal, de resto, foi Olhai os Lírios do Campo. Com aquele título (de 1938), o livro parecia inofensivo e adolescente, muito feminino; uma parte do seu sucesso vinha daí. Mais tarde, em 1966, antes da entrega do poder às patrulhas ideológicas, o próprio Verissimo (falando da importância do livro, que, graças às suas vendas, lhe permitiu viver como escritor) teve o cuidado de reconhecer que Olívia era uma personagem impossível e que Eugênio tinha remorso social a mais. A declaração não é muito importante, mas mostra até que ponto o autor estava consciente da armadilha.

Mas é a sua trilogia de O Tempo e o Vento (O Continente, O Retrato e O Arquipélago) que revela o Brasil que ainda hoje é pouco conhecido na Europa. O fresco histórico é contado a partir do Rio Grande do Sul (e fazendo a sua história) sem ceder um milímetro ao regionalismo mais consensual. A esta distância, confesso, lê-se com dificuldade: é uma saga com muito tom épico, onde Jânio Quadros e Getúlio Vargas têm direito a tratamento ficcional. Mas ainda hoje estou convencido de que, se Verissimo escrevesse em castelhano, José Lírio teria sido um percursor do «fantástico latino-americano» com a vantagem de, ao contrário dos personagens de Guimarães Rosa, não ser um pobre a falar com curso superior. Mas Verissimo tinha lido outros autores, de Katherine Mansfield, como dizem as suas biografias, até Wilde, Shaw e Aldous Huxley. E portanto levou o rótulo de «gaúcho urbano» numa altura em que todo o cânone era verdadeiramente sertanejo.

Durante anos, o Rio Grande passou por ser esse retrato de um pampa adormecido e impróprio para exportação, onde nevava e havia sotaque com espanholismo. Só verdadeiramente depois da década de setenta mostrou o seu rosto. As obras de Verissimo, que estão a ser republicadas, em série, pela Companhia das Letras, são uma oportunidade para reconstituir a história da literatura brasileira de hoje a partir de outro ponto de vista não tão folclórico. Quando hoje lemos Tabajara Ruas e Assis Brasil (nos seus retratos cruéis sobre a guerra dos Farrapos ou nas suas melancolias sulistas) compreende-se melhor o papel de Verissimo.

1 Comentários:

Blogger monica disse...

Não é bem um comentário, é uma confidência a que não posso resistir se alguém me fala de EV: eu tenho um livro de EV que não existe. Eu explico:

Chama-se "México - história de uma viagem" e preparou-me e acompanhou-me há dez anos a uma viagem àquele país. Para quem goste de viajar tomando o pulso aos lugares e às suas gentes não pode haver mais preciosa companhia que um livro de um escritor como EV que nos anos 50 percorreu o país e disso nos dá conta na sua prosa nítida, apaixonada qb.

Mas não é tudo: esse livro, edição dos Livros do Brasil, de que ouvi falar quando preparava a viagem, já não existia nas livrarias. No entanto encontrei-o facilmente num dos alfarrabistas mais conhecidos do Porto. Só que, avisou-me o proprietário, era "um puco caro, sabe, está autografado"... arrepio na minha espinha...... "quanto?", "mil escudos"!

Já se sabe que muitos livros são tesouros mas este é O meu tesouro.

9:48 da tarde  

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